terça-feira, 19 de dezembro de 2017

FELIZ ANO VELHO

Minhas idas ao centro são frequentes. Pego o Praça Ramos fora do horário de pico e vou sentada até o ponto da Xavier de Toledo. Quando eu desço do ônibus, outra viagem se apresenta. Dificilmente fico no presente assim que olho para o Teatro Municipal. Envolvida em reminiscências, pergunto-me como tamanha beleza ainda se conserva como baluarte da história paulistana a despeito de tantos estragos já promovidos ao seu redor, seja pela falta de consciência de programas políticos, que não levam em conta a preservação do nosso patrimônio, seja pela ausência de cidadania dos ignorantes, que deliberadamente depredam e emporcalham nossas ruas.
Sigo em caraminholas, enquanto atravesso o viaduto do Chá em direção à Praça do Patriarca. No vaivém da multidão, de repente, alguém segura meu braço com firmeza. Levo um tremendo susto, pensando em assalto…
Qual deveria ser minha reação diante do avanço da miséria e da violência que aumentou barbaridade? Mas olho melhor para ele: um idoso de expressão bondosa, olhos de íris opacas amareladas, sorrindo com dentes marcados pelo abuso do fumo, face envolta em longa barba alva, prestando muita atenção em mim.
    — Bom dia, menina, você continua bela!
    — Ãhn…?
Rapidamente, minha memória vasculha nos arquivos recônditos imagens da infância e da juventude tentando encontrar alguma que case com a da insólita figura. Para minha surpresa, certa que estou de se tratar de um desconhecido, e já me esquivando com ar de ofensa, ele me chama pelo meu nome completo na língua do pê!
Depois, gargalhando ao ver minha expressão de “cruz credo”, ele prossegue:
    — Ei, Virginia Finzetto, sou eu… o Papai Noel! Não se lembra de mim?
Não faço a mínima ideia de como esse sujeito maluco descobriu meu nome. Isso só pode ter sido, para não fugir do espírito natalino, uma presepada de algum amigo que estaria por ali escondido e rindo da minha cara. Em seguida, o bom velhinho me solta e desaparece rapidinho na contramão.
Oh, céus! Só posso ter enlouquecido em meus delírios, penso.
Então, venho tornar público o caso, para que, quem sabe, possa chegar até ele, agora, todos os pedidos que armazenei desde a época em que passei a ser uma garota incrédula sobre sua real existência.
Diz a lenda que Papai Noel lê, além de cartinhas, o coração de todos os puros. Mesmo assim, resumo minha lista em apenas este desejo:
Xô, 2017!
Dissolva e leve, com a mesma velocidade vertiginosa com a qual você aconteceu, todos os equívocos cometidos covardemente em nome de qualquer divindade.
Assinado:
Eu,
a que prefere apostar em sonhos realizáveis.”

— Feliz ano, velho!
virginia finzetto 

crônica publicada na COLUNA PLURAL (scenariumplural.wordpress.com), em 19/11/2017

DILÚVIO


primeiro movimento
dias o sol não aparecia, e no ar um cheiro forte de tempestade se aproximava. Em outras épocas ela não teria dado tanta importância ao fato bastante corriqueiro na aldeia. Hoje, ambas, ela e aldeia, não eram as mesmas. Uma aridez infinita havia invadido suas terras, e o pouco que brotava, dando pequenos frutos, fora profanado, arrancado por quadrilhas de ladrões e legiões de vampiros que invadiam a região todos os dias. E ainda aproveitavam e abusavam dela e dos seus, sem piedade. Seu útero era uma ferida aberta cuspindo tanto sangue, que ela perdeu a noção da diferença entre o que era sequela da violência do que era sua menstruação. Lilith em dilúvio. Ela ainda ovulava.

segundo movimento
Acordara de madrugada banhada em suor e sangue, e sua temperatura teria explodido um termômetro. Teria sido febre ou delírio aquele sonho? Ou ambos? A infecção não cedia, e agora era impossível segurar também a urina do medo, que arrebentava diques no meio da noite...  
outrora da grota que sangra
agora brota lágrima
gota a gota
de angra
.
.
.

Talvez por isso a cena de um dilúvio iminente, segundos antes de acordar. Sonhou que havia uma nave imensa em seu quarto, de proporções irreais. Do alto uma voz lhe dizia que poupasse apenas as suas partes, pares e ímpares, abrindo mão de vizinhos adormecidos em distrações e promiscuidades e de qualquer bandido declarado, isento ou não de paixões. Ela entrou, mas ainda não havia acordado.

terceiro movimento
Aquela voz, cuja imagem não era visível, ordenou que se lacrasse a nave por fora, e ela permaneceu em seu interior. A princípio claustrofóbica, pôs-se a gritar e a se debater entre suas próprias duras e resistentes paredes corporais, enquanto apenas os seus, que a ouviam, não podiam ajudá-la, pois entregues ao comando do alto estavam aceitando ficar trancafiados juntos, em total silêncio e vigília.

quarto movimento
Aos poucos, calma e aceitação vieram acudi-la, ao mesmo tempo em que o barulho do estrondo do dilúvio externo quase lhe arrebentou os tímpanos. A força de todas as águas que caíam trincaram suas defesas naturais e ela se prostrou de joelhos, em oração, enquanto tudo que ficara do lado de fora ia sendo liquidado com a língua de raio de uma justiça que até então ela desconhecia. Coisas que jamais voltaria a encontrar. Choveu quarenta dias e quarenta noites sem parar.

quinto movimento
Ela pressentiu quando a nave se elevou com as águas, e nenhum dano lhe atingiu. A turbulência exterior contrastava com o acomodamento interior de seu corpo. O sangue e a urina haviam se estancado, agora em reconciliação. Mas ainda não podia tocar todas as suas outras partes, em suspensão, que aguardavam sua própria hora. Alisava freneticamente seu monte de Vênus, na intenção de tirar os vestígios de toda invasão a que fora submetida até então. fora já não havia cumes.

sexto movimento
Ela ainda não acordara quando a porta da nave se abriu. Em silêncio soube de súbito que a única maneira de não sentir mais nenhuma dor emocional era deixar que ela doesse até que ela mesma a levasse à origem, única, de todas as outras dores, cuja resposta sempre esteve dentro de si mesma. urgência no encontro do amor verdadeiro, porque atravessar tudo isso, de mãos dadas, é a mais produtiva das parcerias. ...deus gosta!

sétimo movimento
E quando toda água diluviana baixou em segurança, a voz pediu que ela abrisse os olhos, pois haveria de ser por essas janelas que entraria a luz da revelação, conforme a promessa que ouviu:
muitas vezes, e tantas vezes,
quão indivisíveis e indizíveis
são meus amores

como arco-íris, eles se escondem nos céus,
e aparecem aos incrédulos, vez ou outra,
em sete cores


E ela renasceu em segurança e em total comunhão com o que sempre lhe pertencera.

por virginia finzetto


Meu conto na coletânea COLETIVO, publicado pela Scenarium Livros Artesanais, em 2017.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

DOS MEDOS

pior do que o contato com o subterrâneo é ficar alojado nas reentrâncias da parede do precipício. sem poder subir nem descer, acobertado pela covardia, em profundo esquecimento, perde-se o diálogo principal do script. ao final, quando a paralisia das limitações físicas chegam, as asas já não batem por falta de treino. aguarda-se então a vinda da morte vagando-se em distrações. só a misericórdia entende e acolhe o cadastro de futuras tentativas, mas de novo aparece o medo, antigo esconderijo de proteção das feras, que acaba se tornando ele mesmo o imbatível bicho-papão. 


virginia finzetto

sábado, 25 de novembro de 2017

O QUE OS OLHOS COMUNS NÃO VEEM

ah, o amor,
essa mina de ouro,
guia sua paixão
a procurar diamante
até em garimpo
abandonado


confia que ali
sob escombros
escondido
vive um tesouro
querendo
ser encontrado

virginia finzetto

O FACE NÃO ME DEIXAR POSTAR

será que fui BLOQUIFREIDIADA? não consigo postar escrevendo direto no meu mural.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

LINGUAGEM

eu tenho um caderno repleto de poemas invisíveis. em cada folha, vejo um lápis hesitante e um verso abortado. códigos dos anjos votivos da boca calada. dizem eles que meu silêncio é o fermento necessário para o florescer das ideias luminosas. sem nenhuma previsão, descrevo saudades antigas, como essa que trago dos Beatles quando mataram Paul McCartney e eu acreditei. depois assassinaram o Lennon de verdade, Imagine! George, arre!Sun mil também. agora, só Ringo Starr. 




virginia finzetto

domingo, 19 de novembro de 2017

APREÇO

apreciar, ato raro. não sinto em nenhum de seus sinônimos a poesia cadenciada que exala desse verbo que rebola bola sensualmente. não se trata de botar reparo, muito menos de manifestar arroubos. na mesma calçada, de mãos dadas, andam juntas paz e serenidade. apreciar é a musa do ócio criativo, seu caso de amor mais antigo. do contrário seria apenas leitura dinâmica, passar de olhos. apreciar é agarrar com as mãos ávidas uma grande foda sem hora marcada, penetrando todos os poros do deleite.


virginia finzetto

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

IN EXTREMIS, IN AETERNUM *

Às vezes me pego esperando por algo que precisa acontecer para que outro acontecimento aconteça. É como se houvesse a necessidade tácita de um antes nos bastidores dos atos. Uma antecâmara de cada cena manipulando-as como marionetes para a plateia sempre adormecida.
Seguir o ritmo de um marcador de tempo, como no compasso de um marca-passo, no número de giros da corda mecânica da caixinha de música, no intervalo de cada clique do interruptor de luz…  Nos instantes em que estamos ausentes, onde estamos?
Seria esse gap proposital para que o ser desperto se dê conta do significado da pura espontaneidade? Esta que é a naturalmente responsável pela condução da vida de toda a criação que não a humanidade.
No momento em que o avião inicia sua decolagem, não resta outra opção além da minha entrega para que vingue o voo. Para o curso planejado não pode haver dúvidas.  Qualquer vacilo, gagueira, espirro pode virar o fracasso do espetáculo.

“— Pode-se continuar morrendo pela eternidade…”

Pode-se continuar vivendo na vacuidade.
Pode-se perpetuar alheio a cada golfada de ar a preencher os pulmões.
Pode-se fingir atenção em cada distração.
Pode-se permanecer disperso em qualquer concentração.
Preso a algum ponto da esfera, percebe-se singularmente esse intervalo feito de números, calendários, metas, morais, regras, crenças convencido de que se pertence a algum diâmetro ou raio em particular.
Viver é um verbo que só pode ter sido inventado por algum prestidigitador, nome difícil até de pronunciar. Morre-se desde que se nasce, perpetuamente.  Só.
virginia finzetto
* Nos últimos momentos da vida, eternamente.
publicado na COLUNA PLURAL (scenariumplural.wordpress.com) em 9/11/2017

domingo, 5 de novembro de 2017

BISCATE

no meu ramo
há negócios
frutíferos

faço cílios
postiços
de papel crepom
para faróis de carro

enfeito a vida
e ganho o pão
com quebra-galhos

virginia finzetto

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

VEREDAS

aos poucos, a inspiração vai abrindo uma vereda no matagal do esquecimento. adiante, há um princípio de incêndio, ateado pela ignorância, que não se deve debelar com lágrimas. ingenuidade concluir que tudo possa ser eliminado com lisuras. a passos firmes aproxima-se do alvo para pisar com firmeza no núcleo dessa rebelião preguiçosa. o que poderia fazer o capitão umbigo contra o general de todos os poros? acaba de ser cooptado. 

virginia finzetto

terça-feira, 31 de outubro de 2017

A REFORMA DO ANO

de janeiro a fevereiro
abriu vaga no puteiro

em março
perdeu o cabaço

em abril
farejou o covil
abriu as pernas

maio junho julho
abriu mão da carteira
de trabalho

em agosto
assumiu o posto
promovido
a capitão do mato

setembro outubro
novembro dezembro
amputou cada membro

no réveillon
matou seu cérebro


virginia finzetto

poema sujeito a reformas...

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

TÓXICO

rastros que vi no céu
não são de incontinência de anjo
nem de pó de pirlimpimpim,
aceno de pomba da paz
ou de avião supersônico

eles hipnotizam humanos
que seguem para o matadouro
é rebanho infectado

toca gado... tô cagado!

virginia finzetto

TERMOS

tem sido assim, eu meio tímida tentando afagar as palavras enquanto elas fogem de mim. reunidas em pequenos grupos, elas me espreitam de longe. vejo o risinho sarcástico de algumas, as lágrimas que molham a serifa de outras. o disfarce das mais queridas misturando fontes e tamanhos para dificultar minha escolha. o que mais dói é enxergar a sentença formada pelas minhas prediletas, acenando recadinhos de sarcasmo e de deboche. apenas as de baixo calão ficam aos montes, insinuando-se em desfile, dando-se de graça, aproveitando a ocasião em que são usadas em massa por quem as colocou nessa situação. olho para elas com desânimo. saber que até essa fama é efêmera, pois a cada dia elas estão mais presas à cadeia banal de significados. torço para que o alfabeto se organize e faça uma revolução. 

virginia finzetto

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

DESEMBESTA!

ilusão enjoada
esse sobe e desce
inferno e céu
do movimento que oscila
sem sair do lugar

aprecio mais
o desembestar
de um unicórnio sem destino
do que o carrossel
a girar

virginia finzetto

terça-feira, 24 de outubro de 2017

ADEUS, AMIGA!



Madrid me mata! As unhas mostram o desapego, estou desfusionada e deixei para trás um pedaço do passado a limpo. Eu só não podia imaginar que a Amparo* já não estaria mais comigo nesse resgate. Daquela verdade que sabemos, todos, que um dia alcançará cada um, mas estamos distraídos com tantas falsas pressas e vaidades. O esmalte sai, as lembranças mostram o véu das quimeras, mas a morte é impávida e não está nem aí para o seu lamento. Urgência continua sendo pra mim a palavra mais atualizada.









virginia finzetto

* em memória de Amparo Garcia Paredes, amiga inesquecível. que um dia possamos nos encontrar em outra calle, de luz, pois que a alma é perene e reconhece suas afinidades. eterna gratidão, cariño.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A VIDA É UM CURTA

quando eu vim ao mundo

ele era uma grande teta

virou um grande quintal

se transformou em um grande hospício

hoje está mais para hospital

temo que vire um grande cemitério

virginia finzetto

domingo, 1 de outubro de 2017

EU TENHO TOC

desconheço se há um catálogo de todas as manias registradas no mundo e um recorde sobre determinada incidência, tanto quanto não tenho notícias se alguém mais é viciado em achar dinheiro no chão. pois se um dia precisarem de um caso, sou uma fonte luminosa para testemunhar que, como um ímã, eu atraio qualquer tipo de moeda, sei exatamente quando e onde achei cada uma e ainda faço relatório. mas ontem foi surpreendente eu ter ganho 3 euros e 10 centavos de euro com as bênçãos do Roberto Piva.  

virginia finzetto

ENTRE DAMIEL E POULAIN

fui dormir mais tarde, fora do horário rotineiro e acordei atrasada. não havia energia elétrica e minha cachorra com incontinência urinária já dava os sinais de aperto gotejando por todo o apartamento, enquanto eu procurava uma caixa de fósforos para esquentar a água do café. confiro a bateria do celular e o 3G me permitiu o primeiro contato: sinto muito, não irei à reunião. em 20 minutos tudo muda e eu já estava me decidindo pelo contrário. desci 14 andares pelas escadas, corri até o ponto, peguei o primeiro ônibus, desci e corri para pegar o metrô, no destino certo desci e andei 8 quarteirões e eis que chego exatamente (quando digo isso, significa nenhum minuto a menos ou a mais) no horário combinado. no metrô dei 2 reais para uma idosa que entrou no vagão pedindo ajuda para comer, mas declinei o apelo do moço que entrou na estação seguinte para vender Mentos, olhei com ternura até às lágrimas o jovem rapaz sentado adormecido com a boca aberta, ajudei um senhor cego a tomar o Ônibus Terminal Amaral Gurgel e me comovi de novo com a senhora pálida desabafando em palavras seu desconforto de saúde e sua consulta médica. a reunião durou uma hora e foi um sucesso. não somos do mundo. estamos no mundo. talvez durante um tempo que seja para entender apenas uma palavra, uma frase ou uma vida inteira. quer saber? a vida é muito intensa quando não estamos distraídos.

virginia finzetto

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

ONDE EU FUI ENFIAR A MINHA RECHITÉGUI...

catálogos, folhetos, bilhetinhos
tudo solto em cada canto do escritório
tem rabisco, anotações, jogo da velha
coração e tanto número aleatório
nada faz sentido em papelzinho

por que eu não fiz amarração
com data, senha e alguma pista?
acabo de ligar pro ex
achando que era o cara do cartório
pelo menos combinamos
de assinar de vez
a certidão do descasório

fosse eu organizada
não me envolveria com analista
nem de josé aceitado patrocínio
desse nome #provisório

virginia finzetto

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

REBELDE

eu paro,
mas meu pensamento
corre pra você!


virginia finzetto

REBOOT


roubou minhas mais caras lembranças. esqueceu de propósito um pen drive virgem barato de alguns gigas de memória. sinal claro e vivo de que vamos iniciar uma história, talvez um romance ou um ensaio. nos dados há interfaces tiradas na sorte. cada um se protege como pode. o risco de algum programa ultrapassado atravessar esse muro de fogo pode prejudicar todo o sistema. corro o risco. sigo atualizando. 


virginia finzetto

sábado, 16 de setembro de 2017

FLUIR

comporta
a palavra
escrita

o movimento
das águas


tão hábil é
a escolher
sentidos
que despistem
o (dis)curso efêmero
das falas



virginia finzetto

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A BARRA DE SER LEITOR

QUANDO LHE ENSINARAM as primeiras letras, nada era diferente dos rabiscos que vinha praticando desde os seus primeiros anos de vida. Ao lado das figurinhas coloridas, as garatujas também faziam parte de uma mesma coleção, na qual todos os elementos carregavam um único e preciso significado. Em sua maioria, esses esboços davam nome às coisas, àquelas que povoavam seu mundo, ainda, de restrito saber de um iniciante. Coisas e nomes estavam tão unidos entre si, que era difícil identificar onde começava um e onde terminava outro.
Com o conhecimento das letras e dos números não seria diferente. No início, o abecedário era uma novidade ímpar, continuidade dos costumeiros traços que se somavam à rotina. E sua retina registrava exatamente o que ouvia: som e imagem, escrita e figura, como na frase “vovô viu a uva”.
No entanto, aquele caminho suave, sem surpresas, logo começou a apresentar as primeiras linhas curvas, à medida que as palavras eram percorridas pelo lápis em seu movimento de descrever a escrita a mão. A cursiva ia substituindo os ângulos retos e duros das letras em bastão, ângulos do entendimento primário, ângulos agora transformados pelos desdobramentos infinitos de um conhecimento que crescia passo a passo. Entendimento cumulativo, que instigava a procura por outras leituras, abrindo as portas do futuro universo gráfico, impresso e digital.
Da cartilha ao cartaz, do abecedário à união das letras em famílias silábicas, da frase ao parágrafo, de repente, deparava-se consigo dando um salto de percepção de composições até então desconhecidas, das regras da gramática e das relações possíveis da sintaxe que conduziam cada palavra. Não, definitivamente não era um aprendizado que se extinguiria ao término de um ano letivo, quiçá de vários…
Bulas, bilhetes, cantigas, receitas, manuais, parlendas, HQs, livros… Aos poucos, a leitura passou a ser a protagonista de sua história. Ela, em si mesma, personagem-cicerone de um mundo de misteriosos nomes a saciar a curiosidade crescente de mais um leitor.
E aquela palavra, outrora única, extrapolaria agora a singular e conhecida figurinha colorida de sua coleção de infância.
Agora a palavra correria além… Da fiel estampa ao figurativo, do status de carro-chefe à pole position de uma enorme fila de sentidos alegóricos, todos a desfilar pela sua mente.
Agora, seu ser entenderia que o domínio da leitura exige sagacidade maior para a interpretação dos símbolos. Seria preciso compreender os espaços em branco, as pausas, a combinação sutil das letras nas linhas e as nuances de suas entrelinhas a acomodar cada termo, enxergar os signos ocultos da sentença do outro. Esse é o momento da percepção de que a leitura extrapola a letra, a palavra, a frase, o parágrafo, o texto, o si mesmo.
Agora ser leitor é se transformar em protagonista na apreciação de uma esfera imensa denominada literatura. Dele espera-se fazer jus o papel de apreciador, a embalar vasta produção com seu olhar discriminatório. Entre terminados e abandonados, somente a ele cabe o destino de elaborar a lista do que irá compor a galeria dos escolhidos.
O leitor contemporâneo, por um lado, é um privilegiado nessa mina da quantidade, mas apenas se souber garimpar o ouro verdadeiro. Apartado de sua alma-guia, ele poderá enveredar pelo mecânico caminho de ser mais um leitor óptico a identificar barras.
Virginia Finzetto
crônica publicada na revista Plural Inéditos & Dispersos

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

AMAZÔNIA DEFLORADA

país das costas largas
aviltaram seu centro
colocaram um cérebro de réptil
no lugar do coração
onde caberiam tantos
agora, de assalto, seu pulmão arrombam
no tamanho de outra nação
não temos pernas para só correr
há braços, como tentáculos do po(l)vo
querendo sua proteção
brasil, que esses não são dignos
da grande mãe que lhes pariu

virginia finzetto

DEVOLUÇÃO

por que toda vez que eu resolvo me entregar esqueço de conferir o endereço? número errado, dados insuficientes, mudança repentina do destinatário. devolvida e toda amassada, volto pra casa rabiscada e carimbada. 

virginia finzetto

APAIXONAR, VERBO IRREGULAR

fantasiar é bom...
e eu sei que é paixão porque depois de três dias ainda não consegui dobrar direito a perna. e a cabeça continua fora do lugar, que nem me lembro onde devo ter largado minha calcinha. e se eu fosse enterrada hoje, minha boca precisaria ser costurada, pois é muita bandeira este riso perpétuo de satisfação. ah, nada como um amante atrás do outro, dia sim, dia não. 


virginia finzetto

DESAFORISMO

não só vendeu a alma ao diabo. vendeu tudo o que não era seu, em pactos, em espúrios contratos e em tratos, que fizeram corar até​ o diabo, que, finalmente ofendido, a ele também se rendeu. o maligno. 

virginia finzetto

DE LUA

a noite se despede
da janela
vejo no adeus da lua

sua última piscadela


virginia finzetto

TROCADILHOS

um ônibus que vai pra Carma seria um carma coletivo?

conheci um chinês que é uma doçura: o Chan Tee Lee.

virginia finzetto

CRIMINOSOS

e hoje aqui dentro o dia se despede mais ou menos assim: as más notícias, que se acumularam sem o meu conhecimento, vieram de uma vez como bofetadas em todas minhas partes, até quase me levarem à nocaute. o desânimo em acreditar que poderemos nos safar dessa imensa armadilha de criminosos é diretamente proporcional ao tamanho da febre, que aumenta dia a dia, na tentativa de ajudar a reação dos anticorpos. pela quantidade de lixo e de alto teor de toxicidade, não descarto a possibilidade de uma septicemia. no entanto, isso também aumenta a chance de uma ressurreição e insurreição por ordem da fênix vingativa. na pior das hipóteses, pode-se continuar fingindo que isso não está acontecendo e voltar a dormir. acordar e dormir, acordar e dormir e morrer.

virginia finzetto

CINZAS

os tons de cinza da tv escondiam as cores de um rincão. nas ruas, formigas ferrugens, escaravelhos metálicos, cigarras foscas, gotas cintilantes, coloridas embalagens de cigarro de uma coleção. da tv não se sabia dos tons de cinza de um pulmão. a dita editava em preto e branco certos sonhos, futuros pesadelos.
 
virginia finzetto

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

CAFÉ


das arábias
sopram ventos
que me alentam
a levantar
co'a fé 
granulada
refinada
forte ou fraca
em quantos
algarismos
precisar


virginia finzetto

sábado, 19 de agosto de 2017

FINITUDE

nunca houve uma manhã

em que eu não vislumbrasse


um vivo dia



e assim é a morte,


a soma de todos


findos dias



virginia finzetto

sábado, 12 de agosto de 2017

LILITH

sob meu aparente
convite
há um iceberg
de medos e
desejos inconfessos
escondidos


pseudo-truques
que eu nunca
os contive


virginia finzetto

RETIRO DA BOIADA

o silêncio
é um vasto prado
um prato cheio
de dignidades
em retirada
a driblar o tempo


as afinidades casam
as vergonhas se escondem
as dúvidas se amontoam
os remorsos...
ruminam

dentre elas
se escondem
o medo corrosível
e a perigosa covardia

qual deixará primeiro
esse pasto ilimitado?


virginia finzetto

segunda-feira, 31 de julho de 2017

SINESTESIA

olfato é que
com tato
se faz rima
paladar, audição
a um poema
de visão
[isso faz tanto sentido]

virginia finzetto

domingo, 30 de julho de 2017

SE PARADOS

nossas almas
encontram formas
maneiras
de se atracarem
pelas beiras
nas madrugadas
calmas

alheias aos corpos
inertes na cama
cochicham
amores
bobagem
e se amam
sem modos

virginia finzetto

sábado, 29 de julho de 2017

quarta-feira, 12 de julho de 2017

CAFÉ COMERCIAL


   ... ensaladilla rusa, cerveza...
   — ...vale, gracias...
Enquanto sorvi o primeiro gole de caña, reparei naqueles caixotes cheios de livros margeando a parte baixa das paredes revestidas de espelhos até o teto. Que brega... cursi, como se diz aqui. Estranhei também a pouca frequência naquele horário.

   O que havia me incomodado não fora exatamente os livros, complemento melhor não podia ter, mas a feiura de sua disposição naquele espaço tão charmoso feria minha lembrança do Café Comercial, que sempre exalara a alegria boêmia dos encontros regados a unas copas, risos, não a paz das bibliotecas. Um ícone cultural que visitei pela primeira vez há um século após sua inauguração em 1887. Os habitués de então não estavam ali exatamente para ler, mas para compartilhar leituras já feitas, saraus, um local de troca de impressões, experiências, vivências, celebrações, brindes à vida...; e a isso eu me dediquei por um bom tempo.
   A nostalgia voltara como faca a me rasgar ao meio. Um quê de sadismo a potencializar ao máximo a dor do efêmero, parte que em mim se recusa a morrer. Fiz questão de saborear o mesmo prato típico, quem sabe para instigar o paladar a materializar com precisão as lembranças que me fizeram cativa por quase trinta anos.

   Através das imensas e antigas janelas de vidro, meus pensamentos viajaram em reminiscências, resgatando o movimento das calles, ao redor da Glorieta de Bilbao, nas frias madrugadas de inverno, tempo em que morei em Malasaña. Depois meus olhos vagaram observando cada detalhe do salão. Subi devagar os degraus, um tanto mais gastos pelo uso, da escadaria de acesso ao baño. Alisei a pilastra e o tampo de mármore da mesa.  Observei os lustres, o balcão... Tudo permanecia igual, até a porta giratória da entrada era a mesma. E foi por ela que o vi entrar pela primeira vez...

    Juan não chamara minha atenção apenas pelo porte magro e alto, amendoados olhos mouros penetrantes, pela ondulada, farta e rebelde cabeleira negra. Fora repentino o indefinível que nos uniu naquele ‘à primeira vista’. Definitivo naquilo que qualquer ‘para sempre’ pudesse durar. Inquietante. Ele era uma versão de mim, ao mesmo tempo máscula e inocentemente infantil.
 
    Lembrei-me das animadas e lotadas tertulias literárias que sempre atraíram famosos periodistas, escritores e poetas, gente que fazia o agito cultural da cidade. Juan viera àquela noite para recitar poemas de Antonio Machado, em homenagem ao assíduo poeta, frequentador dos primórdios do Café:
“Fe empirista. Ni somos ni seremos.
Todo nuestro vivir es emprestado.
Nada trajimos; nada llevaremos.

Minha primeira impressão sobre Juan mostrou que eu não me enganara. Reconheci nele uma alma solitária se testando o tempo todo fingir gostar de companhia. Ainda guardo o que escrevi sobre nosso surpreendente encontro naquela noite...

Dezembro de 1987
Assim que larguei meu copo sobre a mesa, Juan pegou minhas mãos e começou a admirá-las de uma maneira que ninguém havia feito antes. “Hace quinze dias que tu no echas un polvo”, falou de súbito. Eu sei que essa gíria significa ‘transar’, mas quis saber por que ele afirmou aquilo com tanta certeza. Ele respondeu, sem expressar reação de aprovação ou reprovação: “Você lixou suas unhas, mas não tirou o esmalte”. Enrubesci de vergonha, mas disfarcei o embaraço com a pronta resposta: “Fiquei sem acetona”.
   Que tipo de homem botaria esse nível de reparo em uma mulher? Qualquer pessoa pensaria ser apenas um sinal de desleixo deixar o esmalte cobrindo apenas três-quartos das unhas. Só quem sabia muito de mim seria capaz de sacar que eu me enfeitava apenas quando tinha alguém na mira. Ai, que vergonha... Exatamente ele, o imprevisto que me interessou mais que tudo, e eu naquele descuido... Como conseguiu acertar com precisão, apenas vendo a parte superior em branco das unhas, os dias que me separaram da última trepada?!

   Foi assim o nosso início. Eu dei um passo, ele me jogou o laço. Virei sua eterna presa, da mesa à cama. Por um bom tempo não pintei mais minhas unhas; ele detestava... [para minha total e grata surpresa!].

   Foram tantos os nossos encontros, do Café a lugares tão distintos de Madrid, que eu não pude escapar de seu fantasma todas as vezes em que retornei à cidade. Mas como tudo em minha vida, veio o fim e a certeza de que ele era apenas mais um. Nômade, beduíno, dervixe solitário em multidões. Não queria compromissos. Nunca me confidenciou detalhes sobre sua vida. Nem eu quis saber, apenas me entreguei de cabeça e vivi o presente daquela paixão. Veio a despedida, e nenhum contato mais.

     Juan sempre fez questão de deixar claro que viajava sem bagagem, que se bastava a si mesmo e que jamais caia em armadilhas que o tirassem de sua maior companhia: ele mesmo. Prefiro pensar que sobreviveu, embora só eu saiba a dor e o tempo que gastei à sua procura sem nenhum sucesso, em períodos distintos. Mesmo depois, pela internet e pelas redes sociais, nenhum dos muitos homônimos pesquisados fez jus ao que eu busquei.  Juan, Juan... por onde andarás?
   - La cuenta, por favor...

   Em minha derradeira visita ao Café Comercial fechei um ciclo junto com o cerrar de suas portas, triste fim de mais um dos cem antigos cafés da cidade, palco de tantos encontros e de la movida madrileña, que não pôde suportar a crise econômica que atingira boa parte da Europa. Em minha última tentativa, ninguém ali ouvira falar de Juan Hadi Vazquez. 
   Mas sei que você não morreu, Juan... sinto aqui dentro que não.

Virginia Finzetto
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in La Barca, revista literária Scenarium Plural,  pp. 34-40, junho de 2016